Enterrados Vivos

Não, este texto não é uma resenha de um filme de terror. Tratarei aqui de expor por que é comum que os movimentos políticos pacíficos tão logo surgem e já começam a cavar sua própria tumba. Não há como declarar guerra ao Estado de coisas, tendo como instrumento a paz, já que a não intervenção não destrói a imposição pungente.

É comum escutar nos principais meios de informação e conhecimento que paz é sinônimo de civilização. E que seu contrário é a guerra, a barbárie. E que se a pedimos e a desejamos muito, em marchas, em escolas, nos meios de comunicação, um dia a alcançaremos. Como se o mundo fosse feito de dois valores, o bem e o mal, e duas cores, o preto e o branco. Como se não existissem as outras cores, mesclas e tonalidades. Como se aqueles que mandam, nunca recebessem uma ordem, ou aqueles que são mandados, tampouco nunca ordenassem também. Uma concepção dualista de mundo é incapaz de anular os diversos estados que existem entre um polo e outro.

Hoje em dia, a democracia, assim como a paz, são conceitos esvaziados de sentido, já que são sustentados em oposição a outros dois (autocracia e guerra), e repetidos até seu esgotamento por todos aqueles que não defendem o “lado escuro da força”. Mas se o que entendemos por democracia é tirar um do poder e colocar outro que talvez (só talvez) nos vá a representar e solidarizar com o povo que necessita de melhores condições para viver e trabalhar, e se paz significa viver em “harmonia” em um castelo enquanto o outro vive em “harmonia” debaixo da ponte, então não são essas palavras as que deveriam ser reivindicadas.

Nós tampouco assumimos a solidariedade e o reivindicar como discurso transformador. Até porque essas palavras nunca tiveram potência como atos universais em nosso léxico. Explico-lhes: se propaga a ideia de que solidariedade é “fazer sua parte”, “contribuir com seu grão de areia para uma sociedade mais justa” e reivindicar é “exigir seus direitos dentro da lei”. Mas acreditar que, porque fazemos nossa parte, “eles” vão fazer a parte que “lhes corresponde”, é enganar a nós mesmos. É manter a falsa consciência de que a violência é um problema externo e que necessita ser exterminado, como si não formasse parte de nosso cotidiano, como si somente porque não nos apontam uma arma de fogo na cara todos os dias, não nos violentássemos. Uma ação individual não mudará o mundo.

Os movimentos (coletivos) pacíficos e sua principal ferramenta, a marcha pacífica, foram os grandes símbolos da solidariedade e da reivindicação do século XX e seguem sendo em nosso século. Os “exemplos” de Gandhi, na Índia e a luta por igualdade dos negros em Estados Unidos, liderada por Martin Luther King, nos faz pensar que seus atos públicos e coletivos foram atos libertários e heroicos. Mas Gandhi e Luther King obtiveram o resultado esperado para as propostas que apresentaram, mas sem realmente obter conquistas a classe social que representavam. Isso porque a resistência civil de Gandhi que pedia a não intervenção no seu modelo econômico, mudou de uma opressão militar aberta e descarada da Inglaterra, para uma opressão encoberta da própria Inglaterra. Deixaram de ser colônia para ser neocolônia. Já Luther King credulamente logrou a adequação dos negros na classe proletária, isto é, consolidou a exploração por classe e não mais por cor. Ambos os movimentos fizeram que a classe dominante sofisticasse seus modos de exploração para que deixasse de ser tão evidente, mas sem deixar de existir. Mas é enganoso crer que os indianos e os negros deixaram de ser oprimidos e violentados pelas posturas e feitos de seus líderes.

A famosa Primavera Árabe, o movimento anti ditadura dos países do Oriente Médio e África, alçado por revoltas libertarias populares, que teve seu inicio em 2010, é exemplo de que se não é o povo quem assume seu destino, o mesmo será destruído. Seja por um regime sectário, autoritário e repressor; seja por um – aparentemente democrático – condicionado por outros países, como é o caso da Síria, onde os insurgentes são apoiados (com armas e dinheiro) por Arábia Saudita, Turquia e Estados Unidos. Muitas das organizações políticas pacíficas do Oriente Médio existem desde os anos 50 do século passado, enfrentando guerras religiosas e governos tiranos, e infelizmente, não foram capazes de modificar o despotismo existente nesses países. O povo de Qatif, na Arábia Saudita, faz anos que marcha em protesto, contra a detenção e a morte de manifestantes políticos, pedindo maior participação em seu próprio governo, e até hoje vivem em um regime onde a população é presa sem processo jurídico e calada a tiros. Em Bahreim, depois da morte de dois manifestantes, a população saiu às ruas em todo o país e o que conseguiu foi um tímido pedido de desculpas do primeiro ministro – membro da família real Al Khalifa – que está no poder faz mais de 30 anos, em um regime de ditadura-reinado-califado. A propósito, na Arábia Saudita, os príncipes Khaled Al Faisal, Selman e Khaled Ben Sultan, também controlam as cadeias televisivas, radiofônicas e a imprensa. Qualquer semelhança com o atual momento de México e Brasil não é mera coincidência.

Dizer que a marcha une as massas e é uma importante arma de denúncia, ninguém duvida. Mas se desgastam as solas dos pés do povo e o rei segue com seus caros sapatos.

Na Espanha e no México, a situação se repete: as marchas não se renovam, mudam seus temas todas as semanas, mas se conserva a forma. A falta de propostas e ações efetivas por parte das organizações conjunturais acaba baixando o número de indignados em uma velocidade proporcional ao aumento de conformados. Grande parte da esquerda no México pede a subida do Andrés Manuel López Obrador enquanto Jesús Zambrano, o presidente do PRD – partido de Obrador, já anunciou que o partido vai aceitar pacificamente seja qual seja o resultado do TEPJF, já que não querem perder o apoio do setor empresarial do país: “Já demonstramos que somos o melhor aliado estratégico da iniciativa privada nacional e estrangeira para incentivar a geração de empregos, desenvolvimento e bem estar coletivo.” Disse Zambrano ao ser questionado pelo Conselho Coordenador Empresarial, a Concanaco, a Concamin e a Câmara Mexicana de Homens de Negocios, por um possível vínculo com as agressões que sofreram alguns grupos empresariais nas últimas semanas. É esta a esquerda que a segue México? Perdemos tempo com sua falsidade. O Movimento dos Indignados em Madrid sofre com a falta de autonomia, já que a guarda o vigia desde bem próximo. #Yosoy132 organizou um cerco a Televisa, que por sua vez, foi cercado de centena de policiais. Por alguma razão, em Atenco não foi aceita a proposta de transmitir um conteúdo desde as instalações de Televisa. Observam-nos de perto e nos vem inofensivos: Se nem um partido político é capaz de fazer cosquinhas ao PRI no México, o que será das organizações com as mesmas táticas e menor infraestrutura?

O Estado admite essas manifestações pacíficas por todo o país porque não significamos nenhum perigo a eles. O autoritarismo tem o controle, tanto concentrando as decisões em mãos de poucos, tanto desviando qualquer ação cidadã desde a verdadeira luta de classes. Já vemos que o número de participantes em marchas e motins anti Peña Nieto diminui…

Atitudes covardes não nos salvarão. Muitos acreditam que se tomamos o poder com o uso da força nos igualaremos à selvageria do outro. Mas é preferível começar a revolução contra a opressão usando suas próprias armas contra eles mesmos, que seguir sendo o elefante caçado pelo rei de Espanha, Peña Nieto e todos aqueles que penduram nossa cabeça na parede a título de troféu.

Se fossemos enterrados vivos na primeira parte do filme, como nos vingaríamos? Fazendo uma toma simbólica cercando uma emissora de televisão e gritando nas ruas como foram injustos? “Se nossos filhos passam fome, os seus verterão sangue”, era um cartaz da luta dos mineiros em León, Espanha. Metáforas a parte, o assunto deve ser pensado.

Talvez alguns acreditem que esta proposta seja muito radical. O capitalismo levou quinhentos anos para ser como é hoje, não queremos que tarde quinhentos anos mais para uma revolução. Dizem os mais “inteligentes” que quem apele para a violência perderá o apoio das massas e ocasionará que a revolução perca força. Mas Cuauhtémoc Cárdenas, nas eleições de 1988, apelou a uma resistência civil pacífica e perdeu votos da massa que se dispersou justamente por essa passividade teimosa frente à imposição e à fraude. Outro exemplo, conto-lhes de um tiro de intelectuais brasileiros que saiu pela culatra.

Nas eleições de 2010 em Brasil, um palhaço de circo se candidatou a deputado federal. Como era um comediante muito conhecido por suas piadas e canções humorísticas, cheias de erros linguísticos, próprios de seu léxico, foi convidado por um partido político de direita que viu em sua candidatura uma grande oportunidade de colocar, mediante os votos que receberia, a outros deputados plurinominais que não ganhariam por eleição direta já que investigações por corrupção o desprestigiavam (como Valdemar Costa Neto). Tiririca, o palhaço de circo, contou com uma equipe de profissionais: assessor pessoal, político, jurídico, de imprensa e marketing. Seu slogan televisivo: “Vote em Tiririca, pior que está não fica”, uma clara campanha de despolitização. Seu nome surgiu em todas as redes sociais quando gravou um vídeo perguntando a seus espectadores se realmente sabiam que fazia um deputado federal e qual era a sua função: “Eu também não sei, mas votem em mim e eu prometo contar depois”. Foi um caso de mídia espontânea, isto é, uma rápida popularidade em internet, como é o caso dos TrendingTopics, que são os hashtags mais repetidos do momento no twitter, como é o caso do #CalabocaGalvão, durante a Copa do Mundo 2010. A imagem de Tiririca nas redes sociais gerou uma proliferação de comentários, tanto para criticá-lo como para rir de sua “coragem”. Seu vídeo no youtube chegou a 5 milhões de visualizações. Imediatamente, iniciou uma campanha em internet e entre os universitários para que votassem todos nele como forma de protesto ao sistema eleitoral, um “ato político de insatisfação política”. Resultado: Tiririca foi o segundo deputado mais votado no país, com 1.300.000 votos. Quatro deputados mais se elegeram por seus votos. Para que sua posse fosse legitimada, Tiririca teve que provar que não era analfabeto. Assinou seu próprio nome e fez duas provas de leitura-escritura. Ainda que tenha se equivocado na grafia da palavra “promulgação” e no gerúndio do verbo “trazer”, depois do ditado oral, Francisco Everardo Oliveira Silva, o homem escondido atrás de seu personagem de circo, assumiu a deputação federal, recebendo mensalmente 26 mil reais por mês, e representando não só os universitários cabeças-duras que votaram nele, senão a toda a população brasileira. Se houve arrependimento? Claro que sim. Assim como houve depois da reeleição de George Bush em 2004. Mas uma vez feita a cagada, há que limpar em seguida ou cheirará mal. Nos casos do Brasil e dos Estados Unidos cheira mal por quatro anos. Os dominados assinaram seus atestados de estupidez.

O acampamento na Praça do Sol, na Espanha, o cerco a Televisa no México e o voto de protesto no Brasil são exemplos de ações que não tocaram um dedo a quem comanda o poder. Em Espanha, as novas medidas legislativas que foram impostas pelo governo espanhol e, que por sua vez, foram impostas por Alemanha, os deixou em condições ainda piores. Mais de 25% da população está desempregada (em 2007, antes da crise, este número era de 7%) e afeta a mais de 50% dos jovens. No Brasil, a eleição tirou o posto de alguém talvez mais apto para atuar por soluções efetivas às necessidades do povo. Estando já na metade do seu mandato, Tiririca apresentou até então projetos de lei a favor da comunidade circense (que anda não foram aprovadas) e lançou a campanha de seu irmão, o palhaço Chicle, para vereador municipal nas eleições de este ano. E seguimos marchando.

Atualmente vivemos com uma massa de informação super disponível e uma incapacidade abismal de interpretar os fenômenos. A BBC News, de Londres, recebeu a ordem de que os preparativos e os jogos olímpicos deveriam preceder qualquer noticia política, principalmente se tratava de Síria (e a morte de mais de 17 mil pessoas que sua “guerra civil” já produziu em 17 meses). A decisão não só minimiza o conflito, como vai mais além: o exclui da vida do inglês. É a política do pão e circo.

Não é nos auto nomeando “de esquerda” que interromperemos a imposição da direita. Não há democracia instaurada em uma imposição declarada. Se não tivemos direitos com Felipe Calderón, muito menos teremos com a subida de Peña Nieto. Se nós não impusermos nossa vontade, não haverá quem a faça por nós. A insurgência deve ser organizada. Só um movimento da maioria poderá ganhar o enfrentamento contra o regime da minoria.

Desejamos um mundo onde a produção material se una a produção intelectual, temos que integrar vontade e inteligência, a teoria com a prática. Temos que pensar em ações coletivas que não se sucumbam sozinhas. Quando já sabemos que as ações de marcha-motim-toma não dá resultados efetivos, é hora de pôr em prática outras manobras. A verdadeira mudança só se dará com uma renovação sistemática, na qual o mesmo proletário integra a técnica com a organização do trabalho, a educação socializante com a liberdade de subjetividade. Nisso pensamos e por isso lutamos.

Já estou me acostumando


Jorge I Guevara

Ontem enquanto parava em um importante cruzamento da cidade, onde estava incluída a tecnologia avançada dos semáforos sincronizados, vi passar, ameaçador, um carro do exército camuflado em cor sépia e café, e reitero o termo ameaçar também pela postura dos soldados em plena posição de ataque, com uma metralhadora integrada ao veículo. Fez-me transladar a cenas longínquas de guerra no Oriente Médio, transmitidas por algum noticiário insone, talvez pela cor da indumentária bélica que se usa nas zonas áridas e desérticas no Oriente Médio em histórico conflito de castas, religiões e territórios, ao redor dos interesses pelos hidrocarbonetos, além de me lembrar daquelas séries televisivas estadunidenses de “combate”.

Pensei imediatamente no meu sobrinho Ernesto, menino de surpreendente inteligência que graças a sua educação contemporânea, desde muito pequeno brinca com armas de plásticos, e com elas, sua mente mágica inventa guerras entre os mocinhos e os bandidos. Transportei o impacto que pode estabelecer nele a circulação do exército pelas ruas da tranquila população menor que cem mil habitantes. O que passará pela sua mente anos depois quando ele se lembre das correrias imaginárias de seus jogos bélicos marcados pela também belicosa realidade do seu país? De um regimento nas ruas em busca de um inimigo comum, de seu mesmo sangue, de sua mesma cultura, com suas mesmas necessidades, moradores de um mesmo solo, em uma luta não só por territórios, mas por posições? Por um lado, políticos em busca de um reconhecimento geral da população e por outro, delinquentes em busca de dominar o território, as estratégias de estes não é a milícia, mas a penetração através da corrupção dos débeis governantes, uma guerra subterrânea. Pois não existe inimigo frontal: este está entre os bonzinhos, de aí as estratégias ortodoxas das patrulhas e rondas, que circulam através de mandatos constitucionais em livre trânsito pelo país.

Viajo para a imaginação futuro do Ernesto, porque já no tempo presente, ele não se surpreende mais com a presença da tropa militar, em seus escassos sete anos, faz cinco que ele já os vê pelas ruas; ele não entende o contexto nem a razão da presença do órgão defensor da pátria, mas provavelmente está acostumado a isso.

Junto com a reflexão e a luz vermelha indicada no semáforo, aparecem a insegurança e o medo, e você se questiona a preparação dos soldados com o ingresso similar a dos agentes de trânsito, que supervisionam a conduta veicular dos outros, mas que certamente param sobre a linha dos pedestres, no referido e em outros cruzamentos, e a apreensão também surge ao redor da presença do exército e dos vulneráveis esquemas do governo para deter o crescimento da delinquência específica, da fabricação de drogas… Sobre mim paira um profundo desassossego; medo de perder a capacidade de surpreender, que eu já não sinta nada, porque acho que estou me acostumando.

A realidade volta à tona com uma buzina prolongada e uma fila de uns quatro carros que me fazem reacionar tardiamente, segundo indicam o estrondo aviso e os olhares de receio dos pedestres. O carro do exército já havia dado a volta na esquina e a circulação veicular transita em velocidade cotidiana. Minha viagem interna se perde na atmosfera urbana, e me dou conta, enfim, que já estou mesmo me acostumando.

Quando falamos de educação I

por Ellen María

Quando se discute educação, todo mundo se acha no direito de opinar e criticar, já que todo mundo já passou pela experiência educativa ao menos uma vez na vida: seja ou no ensino formal, nas escolas de ensino fundamental e médio, seja no ensino não formal, em escolas e institutos onde o curso oferecido varia de acordo com o interesse do gestor (MBA, cursos de extensão, oficinas, etc), ou no ensino informal, como é chamado o que se aprende com o passar da vida, isto é, a aprendizagem adquirida no trabalho, no campo, ou na fábrica, em viagens, leituras ou mesmo em nossas relações sociais. Não há quem nunca foi aluno de alguém.

No entanto, nessa discussão sempre está implícito muita ideologia, é dizer, muitos ecos de vozes alheias. E é justamente esse eco, que todo tipo de ensino traz e transmite, planta e colhe, que temos que examinar antes de entrar no âmbito do cumprimento ou não de um ensino de qualidade por parte da escola, professor ou sistema educativo público. Isso porque não há possibilidade de liberdade e igualdade em nenhuma instituição do regime capitalista, inclusive a escola, por sua lógica perversa de legitimação das hierarquias sociais, e por tanto, aceitar que há solução para a “crise eterna” que vive a educação inserida neste meio, é, no mínimo, incoerente. Reformas educacionais existem desde que o capitalismo existe, porém, reformas, como sua própria etimologia diz, restauram uma estrutura, mas não a modificam, nem muito menos alteram o seu conteúdo. Não há possibilidade de mudança na educação que não esteja fincada à mudança do sistema como um todo.

O direito à educação, conforme o Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais das Nações Unidas, assinado e certificado juridicamente por quase todos os países (Estados Unidos é uma exceção), tem como eixos a acessibilidade e disponibilidade universal. A escola é a principal ferramenta do Estado para que esse direito humano seja cumprido, sua função é transmitir conhecimentos com o objeto do “pleno desenvolvimento da personalidade humana e do sentido de sua dignidade.” Também é seu instrumento mais potente ao disseminar valores e costumes que, para ele, são necessárias. O capitalismo hoje, apesar de suas crises e injustiças incontáveis, desfruta quase exclusivamente de um monopólio ideológico, isso porque a escola é a primordial “ficha” que o Estado possui para induzir à massa a pré-determinados destinos. Seu conjunto de concepções de mundo incumbe os interesses de uma classe que se conserva e se nutre no poder pela pesada exploração do resto da população. Por consequência, o que é ensinado a aqueles que vão a escola é projetado para manter essa fórmula: uns dominam, outros são dominados.

Todos nós depositamos certa esperança na escola, lugar que teoricamente foi criado para proporcionar qualidade de vida, intelectual, material e social. No entanto, esta esperança concebida, exposta muitas vezes em forma de interesse por instruirmos, não é a todos concedida, já que neste regime, a aculturação ainda é propagada, e só a alguns poucos lhes é permitido viver, enquanto a outros muitos lhes sobra sobreviver. Não podemos deixar que a esperança e a qualidade de vida sejam repartidas, em maior ou menor grau, dependendo da classe social e o posto de trabalho que a cada um lhe foi endossado. Mais: Não podemos consentir que a esperança seja aniquilada. Em pleno século XXI se repete um fenômeno medieval onde a probabilidade de que aquele que nasceu pobre mude sua condição de vida é mínima. Na sociedade capitalista, a escola é negócio, o “conhecimento” é mercadoria, ao mesmo tempo em que é, também, mais um meio de fabricar mercadoria.

Transformar as escolas-prisões de hoje em lugar de emancipação e de realização, tal como idealizou José Martí em 1889, é a luta da educação socializante. Quando incorporamos a palavra esclarecida às ações pelas massas construídas, o mundo muda. Este é o nosso projeto.

Beija-Flor

por Humberto Limón

Escutam-se uns zumbidos, a mente entra em paranoia e começa a temer que do céu caiam federais, dos helicópteros encolerizados em busca de alguma erva ancestral com a qual se tem o costume de fazer magia para o reumatismo. Mas resulta que não são os federais, mas uns seres ainda mais coléricos e sem dúvida, mais alertas a quem me remito: falo dos beija-flores, passarinhos bem pequenos, que não haverá quem nunca os tenha visto ainda que seja alguma vez, por aqui ou por aí, ao redor das flores, de rosas, da cabeça de alguém, dando voltas pelo ar, para cima e para baixo, para frente e para trás, que te rodeiam, que se vão.

Das aves, os beija-flores são dos mais singulares, devido a sua capacidade de voo, a seu tamanho e sua alimentação, mas é pela primeira de suas destrezas ao voar que levam o título de “ases” no meio ornitólogo. Podem voar em quatro direções e manter-se suspendidos no ar, alcançando velocidades de até 80 km/h, batendo suas asas de 50 a 75 vezes por segundo, e chegando a parecer mais com uma abelha do que com um pássaro. Outra coisa que os faz “quase insetos” é seu tamanhinho, ostentando também o título das aves mais diminutas. O menor dos beija-flores é o “elfo” das abelhas (Mellisuga helenae) que habita em Cuba, e que mede de seu bico até sua calda uns 5 cm. Além de ser a ave menor do mundo, é o menorzinho dos “de sangue quente”, e para o cúmulo, o macho é ainda menor que a fêmea. O maior beija-flor que existe é o “chupa rosa gigante” (Patagona gigas) que mede 18 cm, e é sem dúvida, um Hércules nesse mundo, mesmo que, por seu mesmo tamanho, seu voar é mais lento. Vive no extremo sul do continente, em países como Chile e Argentina, chegando até o Equador.

Sobre a flor das laranjeiras cresce,

E em ronda ou revoando fica,

no dourado estame se divisa

o beija flor que treme e resplandece.


Com balanço suave em derredor se mede

simulando o suspiro de uma brisa;

e na chama do câmbulo se irisa

e na verdura do cacto floresce.

Víctor M. Londoño

Sua alimentação está fundamentada no néctar, substância composta de água e açucares simples que é uma fonte rica de energia que o beija flor aproveita ao máximo para sua vida. Flores de todas as cores e sabores são visitadas e absorvidas até a saciedade, e a busca de mais fontes de alimento não é detida até que o sol se ponha e seja hora de dormir. Também chegam a se alimentar de pequenos insetos e aranhas, animais ricos em proteína dos quais tiram também proveito na hora que as minúsculas crias rompem a casca e pedem nutrientes. Falando em seus filhotes, o cortejo dos beija flores é desenfreado, literalmente. O voo de acasalamento chega a alcançar a velocidade de 30 metros por segundo, enquanto realiza acrobacias invejáveis. É o beija-flor de Anna (Calypte anna), um dos mais numerosos aqui no estado de Sonora, no México, que foi registrado a “dança aérea” de maior velocidade. As fêmeas ficam assombradas com aquele que leve a situação até o lugar mais extremo. Quando se emprenham, a fêmea constitui um ninho de teia de aranha e saliva; chega a botar dois ovos e durante a incubação sai a se alimentar e voltar ao ninho umas 150 vezes ao dia. Sem exagero. Depois de vinte dias, as cascas se rompem e após mais um mês, as crias já estão prontas para voar, ainda que permaneçam no ninho alguns dias mais para que agarrem força e possam empreender voo.

Os beija-flores têm uma grande importância ecológica para o ecossistema, já que assim como muitos insetos e alguns morcegos, eles fazem parte do processo de polinização, levando o produto de seus bicos de flor em flor, ajudando a reprodução das plantas que gosta de sugar. E para terminar com sucesso sua tarefa, o beija-flor desenvolveu uma das características que o fazem ser identificáveis sempre: o seu longo bico. Dependendo da dieta, isto é, das flores que costuma frequentar, assim será a forma de seu bico. Os que temos em Sonora costumam ter um bico regular de 3 cm, já que o néctar não se encontra muito profundo nas flores das quais se alimentam. Mas existe beija-flores como o Tucusito Coludo Chico (Ramphomicron microrhynchum) cujo bico mede uns 5 cm. Outro caso é o colibrí espada (Ensifera ensifera) que tem um bico de uns 10 cm, mais cumprido do que todo o tamanho do seu corpo.Estepossui como habitat quase toda a América do Sul, e o tamanho do seu bico se deve a que sua dieta está baseada no néctar da Passiflora mista, uma flor que tem seu néctar bem dentro de si mesma. Bicos curiosos como o do beija-flor bicodeáguia (Eutoxeres) que tem seu bico torcido para frente, formando uma curva, lembra aquelas máscaras que usavam os médicosda peste durante a Idade Média.

Como é um animal endêmico deste continente, ele provoca um considerável turismo ecológico. Gente do mundo inteiro com a máquina fotográfica ou de video na mão vêm em busca de beijaflores para levá-los de volta em uma imagem plástica.Os europeus colonizadores, quando recém-chegados a estes lares, ficaram malucos quando viram esta ave. Talvez abismados pelo bater de suas asas, até chegaram a pensar que eram fadas! Assim como também acreditaram que os peixes-boi eram sereias! Pelo visto, as mulheres dessas terras eram todas vistas como místicas.“Um bicho raro outra vez entre tanto animais exóticos que existem por aí.” escreveu Cristovão Colombo, impressionadíssimo em sua bitácora.

Depois de pensar um pouco mais, estes exploradores vindos da Europa pensaram que os beija-flores seriam uma espécie de inseto-ave, talvez um elo perdido na evolução, algum passo antes dos insetos se converterem em aves. Em um terceiro momento, os colonizadores mataram os pequeninos a milhões, para adornar os chapéus das mulheres caprichosas europeias, o que resultou no extermínio de muitas espécies como o Chlorostilbon elegans. É que em Europa queriam ter beija-flores. Em Inglaterra é comum que muita gente acredite ter visto algum voando nos campos de flor em flor. No entanto, o que existe na Inglaterra é uma traça do néctar que, visto sem muita atenção, poderia até parecer um pouco a um beija-flor. E ora, os ingleses preferem se enganar com isso.

Ao estado de Sonora chegam também muitos estadunidenses e europeus com desejos de se surpreender com o comportamento desses pequenos. Afobados, os “gringos” pegam suas câmeras de alta resolução e captam a essa avezinha em momentos em que esta se faz um só ser natural com a flor que suga, ou em algumas de essas casinhas de água açucarada que vem sendo “a guloseima” na dieta dos beija-flores. Por certo, como nota pessoal, tenho uma dessas casinhas especiais em meu quintal, e é uma loucura! Não deixam de zumbar durante todo o dia, alegres e corteses.

Porém, ultimamente, vem chegando à festa “no apê” uma calandra (Mimus saturninus) que se colocou a gozar da “última bolacha do pacote” e quando os beija-flores a vem chegar de longe, saem disparados e a calandra se aproveita da glicose, abusiva, das casinhas de água açucarada. Já cerca das sete da noite, se reúnem ao redor da casinha/frasco e consomem sua janta repleta de calorias para passar bem a noite, já que para os beija-flores, hibernar é questão diária. Sua temperatura corporal chega a ser de 40 graus e ao momento de dormir pode descender até os 18 graus.

Outro dado curioso é o fato de que têm o maior cérebro do reino animal em proporção com seu corpo. No entanto, nós humanos não devemos nos preocupar, já que toda sua capacidade cerebral está dedicada ao abastecimento de energia, o que não lhes deixa muito tempo para reflexionar, digerir ideias filosóficas e planejar a vida. Agora, para todo grande cérebro é necessária a companhia de um grande coração, e no caso das avezinhas, o maior coração em proporção, que acelera a 1200 contrações por minuto.

O que nos aconteceria se comêssemos 50 quilos de pão de uma vez ou uns 250 hambúrgueres? Provavelmente explodiríamos do mais profundo prazer, como o gordo do filme O sentido da vida, de “Monty Python”. Mas o beija flor pode consumir isso em calorias e ainda mais, e não estouram, nem se tornam obesos, devido ao seu intrépido metabolismo que consome tudo em poucos instantes. Um beija-flor que deixa de se alimentar por 10 minutos em seu dia é um beija-flor morto.

Em meu quintal, vi a presença de um beija-flor, que se elegeu amo e senhor da zona onde se encontra o depósito de água açucarada. Ele deixa que as fêmeas bebam sem problemas, mas quando se trata de outros machos lhes hostiliza até que os coloque submissos ou que corram para fora de sua influência. Com os seres humanos nem se altera, muito pelo contrário: é capaz de se aproximar e inspecionar suas atividades enquanto faz seus ruídos de intimidação. Ele é o dono desse pedaço. É um patriarca! Foi batizado por mim como Filipo em alusão ao pai de Alexandre Magno. Quando vai descansar, Filipo se torna um rei humilde e deixa que todos bebam em seu depósito açucarado enquanto ele vê a todos, desde longe, levantando o peito e seu bico aos céus.

“Não é possível determos? Perguntou um beija flor a outro.

Este lhe responde: Está condenado.”